Nos ajude a espalhar essa matéria entre seus amigos e grupos em que você participa.

Moacyr Barbosa (não tem Nascimento, seu nome é simples, tal qual era a sua personalidade), filho de Emydio Barbosa e Isaura Barbosa, irmão de Adeliza Barbosa, nasceu na cidade de Campinas, interior de São Paulo, no dia 27 de março de 1921. Quando criança, mudou-se com a sua família para o bairro da Liberdade, na capital paulista, mais precisamente para a Rua Dr. Siqueira Campos.

Desde pequeno, Barbosa gostava de jogar bola. Brincava de “pelada” com seus amigos nas ruas de terra batida. O amor pelo futebol o fazia sonhar em viajar o mundo praticando o esporte que marcaria toda a sua vida. Na sua adolescência passou a atuar no futebol de várzea pelo Almirante Tamandaré, que era comando pelo seu cunhado José Santiago. Barbosa, pasmem, iniciou como ponta-direita.

Quis o destino que em uma partida o goleiro do seu time faltou, seu cunhado o deslocou para o gol, a contragosto de Barbosa. No entanto, após uma boa atuação, nosso Goleiro Magistral tomou gosto pelas traves e debaixo de lá nunca mais saiu. Depois, ainda no futebol amador, Barbosa ingressou no time do antigo Laboratório Paulista de Biologia (L.P.B.), onde conquistou títulos pela Associação Comercial de Esportes Athleticos (A.C.E.A.).

Vê-se Barbosa no time do L. P. B. Ano: 1940. Acervo: Gazeta Esportiva, São Paulo.

Com 18 anos de idade Barbosa transferiu-se para o Club Athletico Ypiranga, profissionalizando-se. O clube dominado pela poderosa e tradicional família Jafet não era páreo para os grandes do futebol paulista. A qualidade de Barbosa era grande demais, ele merecia ir para clubes que disputassem títulos. O caminho inicial seria o Corinthians, mas a rivalidade entre os clubes paulistas impediu que o Ypiranga o liberasse. Se tivesse que ir para outra agremiação, não seria uma de São Paulo.

Surgiu, então, a possibilidade de Barbosa ir para o Flamengo, pois um dos irmãos Jafet tinha uma boa relação com o clube da Gávea. Era final de 1944, o Vasco se organizava para qualificar ainda mais a sua equipe para o ano de 1945. Chegou aos ouvidos dos dirigentes vascaínos e de Ondino Vieira que Barbosa estaria sendo negociado. Domingos da Guia, então jogador do Corinthians, chancela a qualidade do goleiro para o técnico uruguaio. O Diretor de Futebol Profissional do Vasco da Gama, Rufino Fonseca, se antecipa e contrata Barbosa junto ao Ypiranga. No dia 27 de janeiro de 1945, Fonseca anuncia em Reunião de Diretoria, a contração do goleiro:

Atas da Diretoria (13/08/1941 a 11/05/1948), 27 de janeiro de 1945. (Acervo: CPAD-CRVG)

Aos 23 anos de idade, mais precisamente no dia 27 de janeiro de 1945, Barbosa assinou contrato com o Club de Regatas Vasco da Gama, iniciando oficialmente a sua trajetória no Gigante da Colina. A estreia do Goleiro Magistral foi contra o Grêmio, de Porto Alegre. O Vasco excursionava pelo Rio Grande do Sul. O placar foi um impiedoso 6 a 1, em 18 de março de 1945. Barbosa já dava demonstrações de seu imenso talento, com suas defesas plásticas e postura destemida diante dos atacantes.

A plasticidade de Barbosa. Partida amistosa entre Vasco da Gama e Grêmio/RS. Estádio da Timbaúva, Porto Alegre/RS, domingo, 18 de março de 1945 (Acervo: CPAD-CRVG)
Rodrigues. Ano: 1945 (Acervo: CPAD-CRVG)

Apesar do imenso talento de Barbosa, o goleiro chegou no período da formação da Era do Expresso da Vitória (1945-1953), conquistar a titularidade, que inicialmente pertencia a Barcheta, requeria paciência e abnegação, qualidades que esse Ídolo Histórico tinha de sobra. Alguns dizem que o Vasco na época do Expresso chegou a ter seis bons goleiros ao mesmo tempo.

Contusões e machucados, frutos em grande parte da postura destemida de Barbosa no enfrentamento com os atacantes, impediram que o goleiro assumisse a titularidade. Iniciado o Campeonato Carioca de 1945, a partir da quinta rodada, Rodrigues (Gabriel Rodrigues), recém-contratado junto ao Comercial F.C. de São Paulo, assume a titularidade. Ele estreou na quinta rodada do Campeonato Carioca e realizou doze jogos como titular até o fim da competição, em novembro, ajudando o Vasco a conquistar o título invicto.

Além de ser bom goleiro, Rodrigues tinha muita sorte. No mês seguinte à conquista pela agremiação vascaína, de férias em Caxambu, cidade de Minas Gerais, Rodrigues comprou um “gasparinho”, como eram chamados os bilhetes da Loteria Federal, e foi premiado com 200 mil cruzeiros, uma fortuna na época. Sem precisar mais do futebol para viver, Rodrigues decidiu pendurar as chuteiras e voltar para São Paulo. Felizmente para o Vasco da Gama, essa decisão do arqueiro Rodrigues abriu caminho para que o então jovem Barbosa assumisse o posto de titular do arco vascaíno e se tornasse um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro. Na sua época, o maior de todos.
Barbosa realizou 431 jogos pelo Vasco da Gama, com 282 vitórias, 74 empates e 75 derrotas. O goleiro se tornou o jogador mais premiado do Vasco da Gama. Foram 15 títulos conquistados pelo Gigante da Colina, somando as suas duas passagens, a primeira, de 1945-1955 e a segunda, de 1958-1960.

Campeonato Sul-Americano de Campeões: 1948 (primeiro campeão da América)
Quadrangular Internacional do Rio: 1953
Torneio Internacional do Chile: 1953
Torneio Rio-São Paulo: 1958
Campeonato Carioca: 1945 (invicto), 1947 (invicto), 1949 (invicto), 1950 (primeiro Campeão Carioca do Maracanã), 1952 e 1958 (Super-Supercampeão)
Torneio Municipal: 1946 e 1947
Torneio Relâmpago: 1946
Torneio Início: 1948 e 1958

Infelizmente, por estar lesionado, Barbosa não disputou o Torneio Internacional Octagonal Rivadávia Corrêa Meyer, em 1953. Dentre todos os jogadores da história do futebol vascaíno, Barbosa é o sétimo com maior número de jogos. Mesmo assim, é o terceiro em número de vitórias, perdendo apenas para Roberto Dinamite (555 vitórias) e Sabará (346 vitórias). Barbosa é o goleiro com mais vitórias atuando pelo Vasco da Gama, à frente dos ídolos Carlos Germano (254 vitórias) e Acácio (237 vitórias).

O maior título de sua carreira, se tratando de clubes, foi a conquista do Campeonato Sul-Americano de Campeões, o primeiro torneio continental de clubes no mundo. Barbosa teve papel fundamental na conquista do inédito título do Vasco da Gama e do futebol brasileiro. Nosso goleiro não era coadjuvante do Expresso da Vitória, mas sim, um dos elementos principais da Era de Ouro do futebol da agremiação vascaína. Embora não tenha defendido o tão citado pênalti de Labruna, na última rodada da competição, em partida contra a poderosa “La Maquina” do River Plate, da Argentina, simplesmente porque tal penalidade não existiu, ganhou o prêmio de defesa menos vazada. As defesas de Barbosa garantiram a segurança necessária para que o Vasco da Gama mostrasse ao mundo quem era o Maior da América.

C. R. Vasco da Gama: o Primeiro Clube Campeão da América, o Primeiro Clube Campeão Continental do Mundo. Santiago, Chile, 1948 (Acervo: CPAD-CRVG)

Inevitavelmente, a qualidade de Barbosa o levou para a Seleção Brasileira,. Defendendo a camisa da “branquinha”, foram ao todo 22 jogos, com 16 vitórias, dois empates e quatro derrotas. O título mais expressivo no selecionado brasileiro foi o Campeonato Sul-Americano de Seleções (atual Copa América), em 1949. Havia 26 anos que o Brasil não vencia a principal competição de futebol da América do Sul. O técnico do Vasco da Gama e da Seleção Brasileira, Flávio Costa, levou o principal esquema tático da época para o selecionado brasileiro, o famoso “WM”. Além disso, contava com os craques do Expresso da Vitória, como Barbosa, Ademir, Friaça, Chico, Danilo, Ely… A Seleção cresceu tecnicamente e taticamente, o bastante para voltar a enfrentar de igual para igual seus rivais sul-americanos.

Equipe do Brasil no Campeonato Sul-Americano de Seleções, 1949 (Acervo: CPAD-CRVG)

No ano seguinte a Copa do Mundo voltaria a ser realizada. Nos anos 40 do Novecentos não houve Copa, devido à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O local escolhido para sediar a principal competição entre seleções foi o Brasil. A princípio, o Estádio de São Januário seria a principal arena do torneio, na cidade do Rio de Janeiro, então capital brasileira. Todavia, uma parte dos clubes e boa parte da imprensa foi contra. Optou-se por espremer os cofres públicos e construir um estádio novo, o maior do mundo, o nosso querido Maracanã. Havia a expectativa por uma parte da imprensa que após a Copa Mundo esse estádio viesse a ser cedido para uso exclusivo do Flamengo. Os demais clubes não aceitaram tal ideia.

A melhor campanha da Seleção Brasileira em Copas do Mundo, o segundo lugar diante do Uruguai foi uma grande dor para os brasileiros que acompanhavam o ludopédio. Um drama, que seria massificados década após décadas. Reproduzido e reconstruído diversas vezes para atender vários interesses. Havia a expectativa da conquista, elevada pelas grandes atuações da Seleção nos jogos que antecederam a final. A derrota do Brasil viria a ser com o passar dos anos colocada cada vez mais na conta do seu goleiro.

Poderíamos dar 7 explicações em alemão para dar conta de elucidar os motivos que levaram a criação da narrativa de vilão para Barbosa, que dividia tal papel com Juvenal e Bigode, embora sob nosso goleiro viria pesar mais o papel vilanesco, com o passar dos anos… Mas, daremos apenas uma explicação, em português brasileiro: o racismo, institucional e estrutural existente no Brasil. A inépcia (para dizer o mínimo) do discurso de que “goleiro negro” é menos confiável, torna-se explicação fácil para os ineptos darem conta de explicar uma derrota que poderia ocorrer em um esporte que mobiliza constantemente a imprevisibilidade, quando estão em combate duas boas equipes. Todavia, tal discurso serve para encobrir determinadas falhas na condução do processo (desconcentração dos jogadores, exposição dos atletas aos interesses políticos de momento, cobranças antecipadas, clima antecipado de conquista por parte de dirigentes, políticos e parte da imprensa etc.).

Paremos, por hoje, por aqui. Hoje é dia de rendermos homenagens a algo maior do que uma Copa do Mundo. Hoje, comemoramos o Centenário de Nascimento do Nosso Grandíssimo Goleiro Barbosa. O maior goleiro da história do futebol do Club de Regatas Vasco da Gama. A trajetória vitoriosa de Barbosa merece ser reverenciada. A análise do racismo sofrido por Barbosa durante décadas terá outro momento e outro formato mais oportunos. Entretanto, não deixaremos de expor as Parreiras do racismo, os Complexos construídos e não falharemos como nosso Filho. Além disso, isso não é trabalho para uma única pessoa, mas para uma Confederação de pessoas unidas em revisitar a história de Barbosa, não como juízes que teriam o poder de condenar ou absolver. Precisamos dar à memória desse ídolo do futebol vascaíno, brasileiro e mundial um conforto de Tereza. Um lugar digno, do Rei dos Goleiros.

A vida seguiu. Não fosse a infelicidade da gravíssima lesão sofrida, no dia 16 de maio de 1953, ao disputar a bola com o jogador Zezinho do Botafogo, a titularidade no arco vascaíno seria ainda maior. Barbosa saiu do Vasco em 1955 para o Santa Cruz/PE, depois foi para o Bonsucesso/RJ. Em 1958, retorna para o seu Vasco, a sua verdadeira cruz, a de Malta. Torna-se Campeão do Torneio Rio-São Paulo e do Super-supercampeonato Carioca de 1958.

Barbosa chegou a enfrentar o Rei Pelé, nosso vascainíssimo Edson Arantes do Nascimento, que belo nome de estádio carioca… A derrota vascaína na final do Rio-São Paulo, de um Vasco que já demonstrava o cansaço dos anos vitoriosos anteriores, só não foi maior porque lá estava Barbosa. As defesas eram dignas do Rei dos Goleiros.
Barbosa partiu para o Campo Grande, do Rio de Janeiro. Lá findou a sua carreira no dia 08 de julho de 1962. Uma carreira vitoriosíssima… digna do Rei dos Goleiros. Passou o restante de sua vida tendo que repetir como mantra que não tinha culpa naquela derrota de 1950. Tornou-se um refém da narrativa que lhe deram. Barbosa e toda aquela geração de 1950 foram fundamentais para a trajetória vitoriosa e ascendente da Seleção, que seria coroada em 1958, 1962, 1970, 1994, 2002… 2014 não. No 08 de julho daquele ano, viu-se de fato um verdadeiro vexame.

Por questões do destino, durante anos trabalhou no Parque Aquático Julio Delamare, no Complexo Esportivo do Maracanã. Perdeu a sua queria esposa Clotilde. Mas, no final de vida, teve o consolo da sua filha do coração, Tereza, e dos vascaínos que sempre o idolatravam. Barbosa veio a falecer no dia 07 de abril de 2000. Dia da Resposta Histórica! Os vascaínos sabem dessa história. No dia 07 de abril de 1924, o Presidente do vasco, José Augusto Prestes, emitiu o Ofício n.º 261 à AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos), negando-se a fazer parte de tal liga, pois para tal teria o Clube que excluir 12 jogadores. Eram eles apontados pela liga (seus fundadores!) como jogadores desprovidos das condições morais para praticarem futebol naquela associação. O Vasco ficou com seus “desprovidos”.

O Vasco optou pelo difícil, pois para o Vasco isso não era difícil. Melhor, o Vasco fez o difícil se tornar fácil, pois na essência vascaína é preciso navegar seguindo as rotas corretas. Não é difícil falar sobre Barbosa. A sua história é apaixonante. Nessa data tão especial fica a nossa singela homenagem ao Rei dos Goleiros. Se outros não o definem assim, pouco importa! Nós, vascaínxs, assim entendemos! Barbosa é o rei dos nossos corações. Um fenômeno que atravessa gerações. Um ídolo que será referenciado por nós ad aeternum.

Nos ajude a espalhar essa matéria entre seus amigos e grupos em que você participa.

Comentários no Facebook