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A Conferência de Wannsee (em alemão: Wannseekonferenz) consistiu numa reunião de membros superiores do governo da Alemanha Nazstai e líderes das SS, realizada no subúrbio de Wannsee, em Berlim, a 20 de Janeiro de 1942. Cheia de mansões, a rua Am Grossen Wannsee é um dos endereços mais nobres de Berlim. Ali a Fundação Nordhav adquiriu, no final dos anos 1930, o imóvel de números 56 a 58. O palacete deveria servir como local de lazer para os funcionários do serviço de segurança da SS e seus familiares. O proprietário da casa e fundador da Nordhav era Reinhard Heydrich, diretor do Departamento Geral de Segurança do Reich, a central de polícia e do serviço secreto do Estado nazista. Ele era um dos homens mais importantes do regime, mais poderoso do que quase todos os ministros. Só recebia ordens de Adolf Hitler, Hermann Göring (o segundo homem no Estado) e de Heinrich Himmler, chefe da SS e seu superior direto.

O objectivo da reunião, marcada pelo director do Gabinete Central de Segurança do Reich, SS-Obergruppenführer Reinhard Heydrich, no dia 20 de janeiro de 1942, era assegurar a cooperação dos líderes de vários departamentos do governo na implementação da solução final para a questão judaica, pela qual grande parte dos judeus das regiões europeias ocupadas pela Alemanha seriam deportados para a Polónia e eliminados. Os participantes da reunião incluíam representantes de vários ministérios do governo como secretários-de-estado do Ministérios das Relações Exteriores, Justiça, e Interior, tal como ministros e representantes das Schutzstaffel (SS). No decurso da reunião, Heydrich descreveu como os judeus europeus seriam reunidos desde o oeste ao leste, e enviados para campos de extermínio no Governo Geral (a parte ocupada da Polónia), onde seriam executados. A reunião começou às 12h e terminou duas horas depois, sem qualquer determinação formal. Foi, por assim dizer, um entendimento entre tecnocratas. Não há nenhum protocolo, somente um resumo do encontro: 15 páginas em estilo informal, escritas por Adolf Eichmann, diretor do departamento encarregado das questões relacionadas aos judeus na Central de Polícia do Reich.

Pouco depois da invasão da Polónia em Setembro de 1939, a perseguição aos judeus europeus atingiu níveis sem precedentes, mas a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças já tinha começado em Junho de 1941 depois da Operação Barbarossa contra os soviéticos. Em 31 de Julho de 1941, Hermann Göring deu uma autorização por escrito a Heydrich para que este preparasse e enviasse um plano para a “solução total da questão judaica” em territórios sob o controlo alemão, e que coordenasse a participação de todas as organizações envolvidas. Em Wannsee, Heydrich salientou que, quando as deportações em massa estivessem terminadas, as SS ficariam encarregues dos extermínios. Um segundo objectivo era definir quem era formalmente judeu e assim determinar o âmbito do genocídio.

Uma cópia do Protocolo com as suas minutas sobreviveu à guerra. Foi encontrada pelos Aliados em Março de 1947 entre documentos que tinham sido confiscados ao Ministério das Relações Exteriores alemão. O documento foi utilizado como evidências nos Processos de Guerra de Nuremberga. O Palacete Wannsee, local da conferência, é, actualmente, um memorial do Holocausto. Mais de duas décadas depois, em seu interrogatório em Israel, Eichmann diria que teve de “polir essas anotações para o protocolo, atenuar um determinado jargão e dar-lhes um tom oficial“. As referidas passagens, porém, eram de assustadora clareza para quem conhecia a linguagem do Estado dominado pela SS. Dizia o texto: “No âmbito da ‘solução final’, os judeus agora devem ser submetidos ao trabalho no Leste, sob uma devida coordenação. Em grandes grupos, separados por sexo, os judeus aptos ao trabalho chegarão a essas regiões construindo estradas, no que sem dúvida grande parte será eliminada por enfraquecimento natural. O contingente restante terá de ser tratado de modo adequado, visto que, por se tratar dos mais resistentes num processo de seleção natural, representa a célula reprodutora inicial de uma reconstrução judaica“.

A discriminação racial legalizada contra os judeus na Alemanha começou logo após a tomada do poder pelos nazistas em Janeiro de 1933. A violência e a tensão económica foram temas usados pelos nazistas para encorajar os judeus a, voluntariamente, deixarem o país. A ideologia nazista juntou elementos como o anti-semitismo, a higiene racial e a eugenia, e combinou-os com o pan-Germanismo e o expansionismo territorial com o objectivo de obter mais Lebensraum (espaço vital) para o povo germânico. A Alemanha Nazista tentou obter este novo território atacando a Polónia e a União Soviética, com a intenção de deportar ou exterminar os judeus e os eslavos ali residentes, que eram vistos como sendo inferiores à superior raça ariana.

A discriminação contra os judeus, há muito em prática, mas de forma ilegal, em grande parte da Europa naquele período, foi legislada na Alemanha na sequência da tomada do poder pelos nazis em 30 de Janeiro de 1933. A Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional, que passou à prática em 7 de Abril do mesmo ano, excluiu muitos judeus de exercer profissões legais e de serviço público. Legislação similar rapidamente retirou o direito aos judeus de exercer outras profissões. Pressão económica e violência foram outros métodos utilizados pelo regime nazi para forçar os judeus a partirem do país. Os negócios geridos pelos judeus viam o seu acesso ao mercado negado, eram proibidos de os promover em jornais, e de fechar contratos com o governo. Os cidadãos eram ameaçados e sujeitos a ataques violentos e a boicotes aos seus negócios.

Em Setembro de 1935, as Leis de Nuremberga foram decretadas, proibindo casamentos entre judeus e cidadãos de origem germânica, relações extra-maritais entre judeus e alemães, e a contratação de mulheres alemãs com menos de 45 anos de idade como empregadas domésticas em casas de judeus. A Lei da Cidadania do Reich estabelecia que os verdadeiros cidadãos eram aqueles com sangue alemão, ou com ele relacionado; assim, os judeus e outros grupos minoritários ficaram sem a sua cidadania alemã. Um decreto adicional emitido em Novembro definia como judeu todo aquele com três avós judeus, ou dois avós judeus se a religião judaica fosse seguida. No início da Segunda Guerra Mundial em 1939, cerca de 250 000 dos 437 000 judeus a viver na Alemanha emigraram para os Estados Unidos, Palestina, Grã-Bretanha e outros países.

No final de julho de 1941, Göring ordenara “…realizar todos os preparativos organizacionais, técnicos e materiais para uma solução global da questão dos judeus na área de influência alemã na Europa…“. A partir de setembro, todos os judeus residentes no Império Alemão tiveram de portar publicamente a estrela amarela de Davi, que os identificava como judeus. Pouco mais tarde, veio a proibição geral de emigração, que os privou da última possibilidade de fuga. Em 15 de outubro do mesmo ano, foram deportados em Berlim os primeiros judeus da Alemanha. Na mesma época, entrou em funcionamento a maquinaria assassina de Hitler, no campo de concentração de Chelmo, na Polônia. Ali, a partir de dezembro de 1941, principalmente judeus poloneses de Lodz e redondezas foram executados em câmaras de gás.

Homens uniformizados e à paisana tomaram conhecimento do planejado assassinato de 11 milhões de pessoas. Como burocratas e funcionários das principais instâncias do Império, tornaram-se cúmplices do genocídio oficialmente organizado. Eles cumpriram o que consideravam sua obrigação: o genocídio tornara-se um ato administrativo. Os alemães em geral já haviam se acostumado a virar o rosto, caso ainda percebessem a existência de um vizinho judeu. Não existia mais nenhuma resistência contra a planejada política de extermínio. Por acaso ou intencionalmente, dez dias após a Conferência de Wannsee, Hitler deixara cair a máscara e revelara todo o seu ódio dos judeus, em discurso no Palácio dos Esportes em Berlim. Depois disso, ninguém mais podia dizer que não sabia de nada:

Em relação àquelas pessoas que fossem metade ou um quarto judeus, e judeus que fossem casados com não-judeus, o caso era mais complexo. Segundo as Leis de Nuremberga de 1935, o seu estatuto foi deixado, propositadamente, subjectivo. Heydrich anunciou que os Mischlings (um termo nazi pejorativo para pessoas com mistura de raças) do primeiro grau (pessoas com dois avós judeus) seriam tratados como judeus. Esta classificação não se aplicaria se fossem casados com um não-judeu e tivessem filhos desse casamento. Também não se aplicaria se tivessem uma garantia por escrito com isenção passada “pelos mais altos gabinetes do Partido e do Estado. Estas pessoas seriam esterilizadas, ou deportadas caso se recusassem a sê-lo. 

Os “Mischlings de segundo grau” (pessoas com um avô/avó judeu) seriam tratadas como alemães a não ser que fossem casadas com judeus ou Mischlings de primeiro grau, ou tivessem “uma aparência racial especialmente indesejável que o marcasse externamente como judeu“, ou ainda que tivessem um “registo político que mostrasse que se comportavam ou se sentiam como judeus“. As pessoas que fossem classificadas nesta última categoria, seriam executadas mesmo que fossem casadas com não-judeus. No caso de casamentos mistos, Heydrich recomendou que cada caso fosse analisado individualmente e o impacto em quaisquer parentes alemães avaliado. Se tal casamento tivesse produzido crianças que estivessem a seguir uma educação alemã, o parceiro judeu não seria morto. Se estivessem a ser educados como judeus, poderiam ser executados ou enviados para um gueto degradado. Estas excepções aplicavam-se apenas aos judeus alemães e austríacos, e nem sempre eram cumpridas, mesmo para estas pessoas. Em muitos dos países ocupados, os judeus eram reunidos e executados em massa, e todo aquele que vivesse numa comunidade judaica, em qualquer sítio, ou como tal fosse identificado, era visto como judeu.

Em 1965, o historiador Joseph Wulf propôs que a Casa Wannsee fosse transformada em memorial do Holocausto e centro de documentação, mas o governo da Alemanha Ocidental não se mostrou interessado. O edifício foi utilizado como escola, e não havia fundos financeiros disponíveis. Desanimado pelo fracasso do projecto e pelo facto de o governo da Alemanha Ocidental não ter conseguido perseguir e condenar os criminosos de guerra nazis, Wulf suicidou-se em 1974. Em 20 de Janeiro de 1992, no 50.º aniversário da conferência, o local foi finalmente aberto como um memorial do Holocausto e museu conhecido comoe Haus der Wannsee-Konferenz (Casa da Conferência de Wannsee). O museu também inclui exibições permanentes de textos e fotografias que documentam os eventos do Holocausto e do seu planeamento. A Joseph Wulf Bibliothek/Mediothek, no segundo andar, acolhe uma grande coleccção de livros da época nazista, e outros materiais como microfilmes e documentos origens do regime.

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